Pelas ruas da esperança

Pelas ruas da esperança

A saga diária dos catadores de recicláveis no Brasil

Essa é a rotina para milhares de catadores de recicláveis Brasil a fora. Homens e mulheres lutadores, que encontram no “lixo” o sustento financeiro para suas famílias.
Essa é a rotina para milhares de catadores de recicláveis Brasil a fora. Homens e mulheres lutadores, que encontram no “lixo” o sustento financeiro para suas famílias.

Cinco da manhã, João Paulo escuta a musiquinha suave vinda do seu celular. É o despertador, lembrando que mais um dia de trabalho duro o aguarda.

Ele acorda; mas antes de se levantar repassa filmes e cenários em sua memória: longas distâncias para percorrer; trânsito agitado e concorrido; buzinas e reclamações – diretas ou silenciosas; o peso da responsabilidade e do carrinho – geralmente lotado de materiais recicláveis e, de vez em quando, um equipamento ou acessório que ele pretende reusar ou consertar.

João dá o primeiro passo: sai da cama. Antes do banheiro, dá uma passadinha rápida e emocionante pelo quarto (apertado) das crianças, para contemplar seus lindos anjinhos dormindo. Esta é a sua primeira dose de ânimo do dia; o faz ficar de pé e não abandonar a luta. Ele se tornou um catador profissional de recicláveis ainda solteiro, já se vão dez anos.

05H15. Hora do cafezinho. Hora boa!… Mas João sabe que não pode se agarrar na cadeira; o tempo todo ele fica se programando e fazendo planos. “Quanto vai dar pra ganhar hoje?”

E assim vai… Retorna ao quarto, dá um beijo na esposa, deseja-lhe bom dia, veste seu uniforme de guerra e vai para a “garagem” manobrar seu carrinho. João Paulo orgulhosamente o chama de “carrão”; o aparelho tem roda de automóvel mesmo! Homem de garra…

Essa é a rotina para milhares de catadores de recicláveis Brasil a fora. Homens e mulheres lutadores, que encontram no “lixo” o sustento financeiro para suas famílias. Papel, plástico, metal, vidro, roupas, calçados, móveis… eles coletam tudo.

O consumo não para; as fábricas muito menos. Entramos no “modo automático”; de certa forma, inconsequente. Todos reclamam da “correria”, da agenda sobrecarregada. Compramos, desembalamos, consumimos e esquecemos – ou nem nos damos o trabalho – de refletir sobre a destinação correta que as embalagens e resíduos devem ter. Mas, justiça seja feita; tem muita gente fazendo a coisa certa, separando os materiais e doando. Até porque, não é tarefa complicada: lixo úmido/orgânico de um lado e recicláveis de outro. Sim, assim começa a seleção; as etapas seguintes ficam por conta do time de nobres trabalhadores da coleta seletiva– catadores e triadores autônomos e/ou registrados em empresas e cooperativas.

É difícil imaginarmos o mundo atual sem as embalagens. Especialmente os alimentos. A embalagem protege, identifica, informa e facilita a logística para todos. Mas precisamos repensar nossos hábitos de consumo, bem como nossa postura no quesito Coleta Seletiva doméstica – todos somos consumidores. O poder público também é corresponsável; mas não conseguiria resolver este drama sozinho, sem o apoio e participação da sociedade. É um desafio diário: em casa, na escola, no trabalho, no lazer e até mesmo no carro geramos resíduos.

Precisamos reciclar – começando pela nossa forma de pensar. Uma dica interessante, que funciona, é a seguinte: pense que um resíduo, inicialmente, tem que estar em um dos dois lados, apenas dois lados. Ou seja, é orgânico (restos de frutas, comidas, líquidos) ou reciclável (embalagens em geral, acessórios, eletrônicos). Claro que nem tudo é passível de reciclar; mas o simples trabalho que temos de fazer é esse. 

Não tem segredo. As etapas seguintes resolvem o resto, até a separação final, em que todos os elementos ficam organizados e prontos para retornarem à indústria da transformação.

Sustentabilidade, esse é o tema que precisamos abordar, adotar e praticar diariamente.

A coleta seletiva porta a porta ainda é um desafio a vencermos, porque, se dar o trabalho de separar os resíduos tudo certinho, sem ter quem os recolha para a reciclagem é frustrante. A coleta convencional não supre essa demanda. Os compactadores, acoplados aos caminhões, estão programados para armazenar o máximo de resíduos, triturar e misturar tudo “sem sentimentos” – apenas negócio.

Daí, voltamos a lembrar dos catadores e sua vital importância nessa saga ambiental que nos encontramos. É extremamente necessário – e urgente, valorizarmos e ampliarmos a oferta de catadores de recicláveis. Enquanto que para eles é um ofício, para a sociedade é uma solução ecológica e inteligente. Mas não podemos nos esquecer de que os catadores e todos os membros da equipe de triagem e administração das cooperativas necessitam de dignidade e proteção, comida saudável, equipamentos EPI, lazer e remuneração justa.

Precisa ser feito. Enquanto um grupo descarta, outro recolhe e dá a destinação correta para cada material, gerando assim o equilíbrio; a sustentabilidade ambiental.

E por onde começamos?

Pela mente; aceitando o desafio, reconhecendo que somos todos corresponsáveis. E não apenas ficarmos esperando que o outro faça primeiro.

Comece de maneira tranquila, em casa, incentive sua família e vizinhos também. Se necessário for, no início, faz uma forcinha, leve os materiais até uma cooperativa ou “ferro velho” próximo de sua casa ou bairro. Já é um progresso. Porém, ainda que não esteja ao seu alcance o contato com um catador, não se desanime, não desista, mantenha esse propósito; pois há de chegar o momento em que seu bairro ou região terá esse serviço disponível.

Outra forma de cooperar é apoiando um catador (a). Sim, você pode incentivar e ajudar mesmo à distância. Com seu apoio, a oferta de catadores pode ser ampliada de forma exponencial.

Já conhece o FAN – Fundo de Amparo a Natureza? É um programa de apoio aos catadores, uma iniciativa do Forest Bank e IGF (Instituto Geraldo Farroupilha) e com a ajuda de cidadãos de todo o Brasil. O programa visa treinar novos catadores, motivar os atuais e instalar estações de coleta seletiva comunitárias.

Sua ajuda e participação são de suma importância. Conheça melhor o programa em forestbank.org e junte-se a milhares de pessoas engajadas e determinadas a promoverem um planeta sustentável para todos.

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